POESIAS JORDANO SOUZA

 

Jordano Souza

Jordano João Batista de Souza, nasceu em São Gotardo/MG, em 1989. Escreve desde a adolescência. Já publicou vários poemas em blogs e revistas digitais e obteve algumas classificações em concursos. Jordano gosta de haicai, desse tipo adaptado à nossa realidade cultural, mas usa variados estilos de poesia, geralmente, refletindo o cotidiano. Viveu em Goiás e Brasília, mas voltou à sua Minas Gerais e vive em Patos de Minas, onde continua escrevendo.

Não há muito tempo que nos conhecemos, mas tornou-se um amigo e companheiro das artes na Vila Barroló. Quando esteve com a gente, entre café, tabaco na palha e muita conversa, eu pedi permissão pra publicar alguns textos de sua autoria, o que faço, com muito prazer e honra. Os poemas estão abaixo. Aproveite!

Jordano Souza


Fazia cores no céu

ao redor da nossa casa.

Era tanto desenhar, que eu,

meu irmão e minha irmã

não conseguíamos pingar

as cores no caderno.

Tem cores que parecem

cantorias, e cantorias servem

só para embelezar as vistas.

 

Pingar cor nas cantorias

é pingar secura no rio

que molha a poesia.

 



 

Quando pequeno, Deus

colocou a mão na sua

boca e disse: esse franzino

vai botar palavra pra trabalhar.

 

Era tanta judiação que havia

palavra que não sabia seu lugar.

Palavra porta, sempre usada,

já não sabia se ficava aberta ou fechada.

 

Adivinhou a ficar nem fechada

nem aberta, semicerrada recebia

o calor e o sonho de todo mundo

que nela não entrava.



 

Passei em frente sua última casa,

minha mãe.

Os muros estão sem tinta,

as árvores não estão podadas.

O que acontece?

Você e seus vizinhos merecem

mãos de tinta e podas frequentes.

 

Sim, adentrei o portão,

minha mãe.

Vedaste minhas visitas

na moradia derradeira.

Desobedeci, ajoelho perdão.

Tenho motivos, minha mãe.

Vim trazer cor,

nunca deixou

faltar-me coloridos.

 

Não olha para esses muros

e para essas árvores insensíveis,

minha mãe.

Lembra que estive aqui

e que sempre lhe trarei borboletas.



 

Quanto mais caminho

mais próximo chego

da verdade.

 

Quanto mais próximo

da verdade, menos pássaros

pousam em mim.



 

Sempre que vejo um coqueiro

recebendo luz pela manhã

lembro da minha mãe estendendo

as camisas brancas do meu pai.

 

Não há semelhança física,

há similitude poética.

Seres doando bonitezas,

filantropia natural



 

Seria às vezes se não fosse sempre.
Trabalho, durmo, lavo sapatos,
faço comida voluntária.
Quando-é-fé cá estou,
pensando numa maneira de
destrancar a poeira do poste.
Nessas horas escuto a sombra
da infância me lambendo.
A descoisificação atua de remédio.
Quando estou criança, Deus
sente inveja do arrebol.



 

Observar as pedras,

observar a si.

Olho no espelho;

vejo um rosto ou

uma caricatura?

Tirei as tardes

para caminhar

no parque ecológico.

O lago me acalma,

a floresta falsa me acalma.

Mas os grafites…

Os grafites me cegam,

deixam-me surdo.

Volto para casa titubeando

procurando conforto nas esquinas.

Essas tardes. Essas tardes não terminam



 

que pensa?

O que pensa, meu Deus?

 

Minas sabe possuir tristeza.

O trem geme entre as pedras.

 

É ferro passando no mato

É ferro passando na água, meu Deus.

Passa gente, passa comida,

passa lama, passa bosta.

 

Quem paga esse trem

andando em dia santo?

Sou eu? São os peixes?

Os ribeirinhos?

 

É dia santo, meu Deus.

Deve ser pecado sorrir assim.

 

Minas sabe possuir tristeza.

Mas tem água, tem montanha,

Tem homens que choram.

 

O que pensa?

O que pensa desse mato?

O que pensa desse peito que nada raciocina?



 

Chegando em Goiás

vi-me criado por dois recém nascidos.

Cozinhavam, organizavam os dormitórios,

vendiam comida , aparavam a grama. Juntos

para zombar do tempo.

 

Morávamos no quintal, e

usávamos a casa para

cultivar as plantas.

 

E se a receita fosse guardada?

E se a mata invadisse o quarto?

 

Conheci o frio

quando ferveram a água.

 



 

Minha palavra advém

de um comércio de rua.

 

A barraca voou minhas pernas.

 

Ouvi pessoas que sentem fome,

que sentem pena.

Minha fome cresceu.

 

Comi do sereno.

Comi da chuva.

 

Minha palavra nasceu

pela boca.

 

 


Outra seca no planalto,


 

os santos se calam.

A reza não chega. Se chega,

vem exausta de calor.

Passa uma hora, passa outra hora

e o dia se deita. Os sóis artificiais

seguram a cidade pela crina.

Ergo o queixo, só vejo céu.

Esse mar de pedra deseja

o céu como ninguém.

 



 

Desculpe-me pela fala gaga

pelo mato alastrado

pela roupa amassada.

 

Ter a vida demarcada

distrai os lábios da memória.

 

Sou gago, não sou rouco.

 



 

Eu ouvia as histórias

da fazenda, da roça,

não sabia que seria eu.

Tenho os quatro sisos,

cabelo cheio, pele viva.

 

Volto pra roça, ainda tem

coqueiros, tem morro, pouco pasto.

A entrada penetra o ontem,

ainda ontem era muito.

 

Os bichos não mudaram,

não sei os nomes dos pássaros.

Mas eles cantam, eles cantam.

 

A água não aumentou, a mina

segue sadia, mas é pouca água.

Uma listra que acompanha o pasto.

Uma listra que escorre em mim.

 



 

O silêncio

sabe

o que não sei.

 

Calo-me pelas

crianças das esquinas.

Calo-me pelas

bancas de jornal.

 



 

Poetas e bichos

germinam

no abstrato.

Já chorei

vendo gente de terno

vendo gente de vestido

vendo gente de gravata.

Mas nunca chorei medindo

o limite do abstrato.

Você já mediu o abstrato?

Não é longo.

(Mas não tem fim).

Tem cisco

que não precisa de lupa

para ser amentado.

 

 



 

Dois

Só um

Depois

Nenhum

 

Foi pois

Jejum

De dois

Sou um

 

 



 

A Máquina

 

Eu tinha uma bolsa,

um chuveiro velho,

uma máquina de poses

quebrada, fios de várias

cores e uma madeira que

servia de antena e de mesa.

 

Ajuntei as crianças

da vizinhança e as convenci

que eu tinha uma máquina do tempo.

Todas tiveram fé em mim.

 

Aplicávamos formigas no oríficio

da máquina e elas saíam pequenas,

mal saídas das fraldas.

Aplicávamos gravetos, do outro

lado a máquina cagava sementes.

 

Eu sabia que era invento.

Mas acreditei e nunca perdi

a crença. Os outros cresceram,

talvez esqueceram do passado

sem tempo. E eu continuo projetado

no artefato que caga poses.

 



 

Formigas peregrinam

Da sala para a cozinha.

Escuto-as triturando

O móvel de paletes.

 

O galo chinês abençoa

A mesa preta. Até junho

De dois mil e quatro

Seu único peso era a bíblia.

 

A sombra da antena

Faz sinal de paz.

Na cama não há paz,

Não há paz na cama

De quem escuta a rua.

 



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O ECHAD É QUADRADO
Bezerra A.

5 thoughts to “POESIAS JORDANO SOUZA”

  1. Interessantíssimas as imagens poéticas. .. Sutilmente descontrutoras da cristalização e engessamento cotidiano.

  2. Que lindas poesias !
    Parabéns, Jordano! Legal ver que ainda tem gente com o mato no coração, canto de passarinho na cabeça e pena a mão!

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