O ECHAD É QUADRADO

POESIA QUADRADA
3117-1- Bezerra A.

 

E aqui estou no Sarau Prucurundú poesia, da Comuna Barroló. Deponho, sim, senhor, a quem não for credor, que ainda sou, Antonio Cleofas de Oliveira Bezerra. Mas prefiro cléo, morador da Vila. Tenho 62. Escrever é preciso, desde a juventude, com avidez, porque nunca pude evitar tanto gostar e me sentir bem em fazer isso. Nunca consegui completar nada que justificasse uma publicação física, embora deseje. Sigo publicando em blogs, coisas que, frequentemente, retiro por não gostar ao reler. Não me incomodo com isso, desde que possa fazer o que gosto, escrever, ainda que tudo de novo.

POESIA QUADRADA


Poesia quadrada é o nome que dei a esta experiência com a palavra carregando forma de poesia dentro de uma crônica. É uma luta interna pessoal sobre que não me sinto confortável escrevendo de certo modo. A proposta é uma escultura de palavras, em que os versos são de tamanho aproximados, formando quadrados que equilibram as ideias como numa mesa.

Tenho pensado que o redondo é mais simpático ao homem terrestre, pela necessidade que leva da ideia de movimento pela inquietação do sucesso aliado à tecnologia e progressismo. O redondo pode ser produtivo e necessário, como também pode ser reacionário e destrutivo, tudo a depender de um comando da vida em seus movimentos.

Contudo, o quadrado é mais divino e perfeito. Ele é assentado e quieto com majestade e guarda em si a noção do equilíbrio que se contrapõe à iniciativa privada. O homem não quadrado capenga e tudo estará perdido. Esse texto é uma ode à igualdade e a produtividade cooperativa dos humanos generosos em suas decisões pelo reconhecimento de seu semelhante, aqui representadas no ato simples de uma visita numa tarde tão comum como todas e tão especial como se a faça.

Muitos estavam fora e eu não quis ir. Fiquei. A falta abriu portas a outras fontes que suas presenças antes ofuscavam. Pensando em que perdi, notei o que ganhei e isto, somado a eles de volta, me torna agora ainda mais rico, além de perceber melhor o quanto tenho que amar e precisar de gentes.

ECHAD


O texto abaixo está repleto de conceitos e metáforas que guardo com paixão porque mudaram minha vida com uma visão mais lúcida das coisas do mundo e como eu existo no meio delas. Não quero, não é preciso e nem poderia explica-las. Mas quero prestar minha reverência a uma palavra, Echad, o tempo ápice da luz sobre o homem no Éden, o mais alto nível a que chegou o homem, para consciência de si mesmo, momento em que se descobriu mulher.

Echad está nesse poema como a ideia de moradia essencial, habitação do ser dentro do ser, na interação com a terra, sendo ela, um ser vivente e humanos, alma dela. Dedico isso a todos os que comigo convivem e conversam, embora ainda tente compreender o significado de amizade.

Honre-me com sua leitura e faça-me seu amigo com a crítica.

AOS MENESTRÉIS DO MATO CERRADO
ECHAD, A CARTA 

Bezerra A.


Salve, senhores menestréis! Respeito. Passar bem e ter passado, futuro lhes seja venturoso. Estive acalmado, pés descalços sobre esta terra onde moro, com o pensamento inflamado em tudo o que se há falado nestes saraus às margens desse córrego, depois de não ter querido ir convosco.

Vi que a vossa condução, ao enfiar-se na poeira para desaparecer, levou consigo o momento e me fechou dentro dos olhos a que eu visse como seria melhor ficar. Fui mais longe do que pensais e esta é a boa notícia, o que de melhor houvesse em estar quieto no Echad do meu aqui.

Este tempo me desconhecia e eu, a ele, embora me instasses ao porquê de ficar. Mas conheço, não de pouco, que tempo é um amigo irmão, como vós, queridos amigos, pacificador, que não nos ostenta antecedências, nem nos assoma a lembrança má. Somente, como um irmão mais velho, nos cura, a rogo do pai.

Num fértil crescente que durou todos esses dias e ainda dura, conversamos, sobretudo, sobre tudo, e achamos alguns diamantes, como quando vos assentais aqui, embaixo da mangueira, a ler em folhas de árvores a carta aos humanos sobre o que há de tão importante em coisas não tão importantes do dia-a-dia.

Soube, quando decidi vos escrever, que vos alegraria com isto, porque foram as fantasias das palavras, estas mesmas quais andei levando em passeio por estes canaviais, que enfeitaram encontros históricos para vossa empreitada cultural. Sim, fui à casa de mutum e liguei gentes de cá a gentes de lá, em conversas caipiras.

Vede que o caso desse acaso é a coincidência com o convidares vossos convivas a esta novela tabaroa, do meu encontro na casa do ilustre artista do mato do cerrado, sincronizando uma coreografia precisa até no tocar no ombro do artista da vaca e do leite e expor-lhe fatos que reforçam vossas amizades camponesas.

Sim, houve produto, achei palavras certas em meu modesto linguajar tabaréu e estive assim durante um tempo não pequeno. Depois, saímos, eu e ele, a visitar outros amigos com quem falamos das benesses de tal propósito humano da conversa. Agora que voltei, aguardo-vos, de novo, quieto, mas ansioso em prestar essas contas.

Antes da hora do vosso teatro, vi o tízâ, como dizem, vibrei por quem, desse Belo Horizonte, veria arte em vossa fala. E entendi quão diletos são estes escolhidos das minas, suspenso em que uns incorressem em pensar que esta é uma peça como as outras. Sobre isso, disse o mutum, é uma trama sobre que gentes têm o poder de conversa.

Claro, antes de ir, embriaguei-me com vinho, como disse o rei, recomendando-me à sabedoria. Foi assim que inventei esta alegria e aventei contos de coisas que comovem. Deveis, de fato, alegrar-vos com isto agora, em que tenhais sido reforçados nos ganchos que tanto quereis para esta cultura do mato cerrado.

De nada…

 

10 thoughts to “O ECHAD É QUADRADO”

  1. Aqui matutando em como abordar um texto (e um pré -texto ) tão profundamente carregado de poesias e filosofias, daquelas que não se compram nos livros…
    Por fim , posso dizer que reconheço ter contatado em parte minha essência e vislumbrado o Echad em momentos onde o tempo brinca de ter vida real no espaço físico do logos terra.E se, e por, ter me entregue para ser permeada por seus invisíveis filamentos medicamentosos, mergulhei fundo para longe de meus (des) semelhantes.
    E reconheço que depois do mergulho, que no meu caso durou anos , visto não contar com um coletivo engajado em ser/fazer vida/arte, emergi sondando se ainda conseguia entabular conversas e entregar meus sentimentos verdadeiros aos seres que dividem comigo este tempo/espaço material…Por um tempo treinei em amar mais escancaradamente nossos irmãozinhos menores, os animais, e descobri uma reciprocidade espantadoramente fluída e natural.
    Por fim, eis me de volta ao convívio humano, e redescobrindo assim como Drummond , ” a perene e insuspeitada alegria de conviver…”. Tateando ainda, pois fácil demais é o ferir sem a intenção de.
    Do texto o que fica ainda, é a vontade de ter o poder das conversas e aprofundar nesse “redondo e quadrado” . Só pra entender a diferença do que fui sempre levada a pensar: Que o redondo é o infinito e o quadrado a limitação, e de certa forma esse pensamento hierarquiriza o redondo acima do quadrado na nossa escala mental de amontoam conceitos e valores… Com certeza uma conversa estimulante pra minha mente curiosa. Parabéns Cléo,morador da Vila.E obrigada.
    Me fez escrever e pensar um bocado de coisas!

    1. Olá, Cássia. Demorei reagir aos comentários porque nem os havia visto. Geralmente penso que quase ninguém lê essas coisas e, se leem, não consigo comover pela própria inadequação da linguagem quase pirracenta. Na verdade, meu texto ainda é adolescente literariamente, apesar de carregar marcas de sexagenário. Soa confuso muitas vezes, pela complexidade do tema a que me proponho. Talvez seja mesmo muita areia pra meu caminhão, mas continuo porque gosto do exercício.

      Sobre a forma de ser humano, pra mim, é muito natural dar prioridade ao movimento, ser redondo. Claro, se viver é estar indo pra algum lugar no tempo e espaço… mas, quadrado é maior, porque a quietude (prepotência?) que ele propõe indica como meta a ser atingida, o que está nele definido. O quadrado é calmo em seu lugar e isso sugere que é bom. Isso é ligado ao Echad como linguagem do homem com sua madre (esta natureza, como a vemos e sentimos), como se abrisse uma vagina querendo conhecer o lugar de onde vem…

      Não quero escrever sobre tudo o que vc mencionou pra não ficar extenso, mas é sempre tentador encompridar uma boa conversa, porque sou viciado nisso. Escreva-me qualquer coisa, quando quiser, será um prazer conversar. Abraço forte e obrigado pela participação.

  2. Correção : e de certa forma esse pensamento hierarquiza* o redondo acima do quadrado na nossa escala mental* de conceitos e valores

    1. Cigarras visitam qualquer, desde que a ouçam… mas eu tenho medo de cigarras em algum caso, pela confabulação da fábula. Com certeza, foi John D. Rockefeller quem inventou essa fábula mentirosa e infame! É desumano pensar que a anarquia das formigas não seja tb uma forma de canto, mas alguém resolve atacar o sono da cigarra sobre se morre de cantar ou canta pra morrer… bem, formiga também morre de trabalhar, o que, na lógica da fábula, é obviamente mais estúpido. Na verdade, cigarras e formigas trabalham pra viver e morrer na relação de lugar, tempo e modo. Isso, pra mim, é boa-morte, totalmente Echad. Elas denunciam, cada uma a seu modo, tal torre a que nos convocam fábrica e escola.
      Bjnhos, meu bem. Sua provocação me ajudou muito.

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